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Segunda-feira, Março 29, 2004
O Mundo dos Sentidos
O que é o mundo real? Como conseguir discernir a realidade do sonho? Você acha que o que lhe cerca é real?
O conceito de realidade é algo extremamente relativo. Alguns pensadores, por exemplo, acham que a vida real de um animal se resume ao seu estado de sono. Cada indivíduo sairia deste estado de sono, entrando no estado de vigília (acordado), apenas para poder saciar suas necessidades básicas, como: alimentação e reprodução; voltando em seguida ao estado de sono.
A grande verdade é que vivemos num mundo de ilusão. A nossa realidade está restrita pelos atributos de nossos sentidos e pela capacidade interpretativa de nossa mente. Pacientes psiquiátricos, daltônicos, usuários de drogas, médiuns, dentro outros, sabem muito bem disto. O mundo da percepção não coincide necessariamente com o mundo físico. Diversos processos neurais, muitas vezes responsáveis pela otimização da detecção, distorcem os sinais físicos e criam uma realidade psicológica.
Tomemos o som como exemplo. Imaginemos uma floresta desprovida de animais. Agora imaginemos que, por ação de alguma força da natureza, uma árvore venha a cair, batendo vigorosamente contra o solo. A queda desta árvore produzirá algum barulho? A resposta seria não! Não, na ausência de um sistema capaz de captar as oscilações mecânicas produzidas, não existe som. Ondas mecânicas seriam propagadas sem que nenhum som fosse produzido. Algo parecido acontece o tempo todo ao nosso redor. Uma enormidade de ondas mecânicas de diferentes freqüências varrem o ar a cada segundo. No entanto, somos incapazes de ouvir tudo isso e tomamos ciência de apenas uma pequena fração.
Isso acontece com todos os nossos sentidos, o que nos torna verdadeiros prisioneiros da mente. A única forma de transcender estas limitações é através de máquinas e sensores artificiais, capazes de traduzir, para uma linguagem sensorial conhecida, o mundo invisível que nos cerca.
posted by DANIEL PESSOA
6:21 PM
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Sexta-feira, Março 19, 2004
A Pedra do Juízo Final
Em média, numa só noite, mais de 100 milhões de corpos de material interplanetário atravessam a atmosfera terrestre. Felizmente, a maioria desses componentes de asteróides e cometas, do tamanho de pedregulhos, é vaporizada pela densa atmosfera terrestre.
Quando objetos maiores entram na atmosfera, não se vaporizam, mas explodem ou se chocam contra a superfície do planeta. A probabilidade de um objeto de 60 metros de diâmetro atravessar a nossa atmosfera, ainda neste século, e explodir a poucos quilômetros da superfície, provocando uma devastação do tamanho da região metropolitana de Nova York, seria de cerca de 10%. A probabilidade para um impacto de um asteróide de 100 metros de largura ou maior seria de 2%, com conseqüências catastróficas.
Diversos planos visando a proteção de nosso planeta-natal contra a colisão de gigantescos asteróides já foram arquitetados pelas agências espaciais:
Método das Explosões Nucleares: destruição do asteróide em pedaços ou de parte do asteróide com mudança de curso;
Prós: a tecnologia necessária já existe (ogivas nucleares);
Contras: os resultados são imprevisíveis, podendo haver a formação de um grande número de fragmentos grandes;
Método do Impacto Cinético: projeção de um grande corpo contra o asteróide, com a maior velocidade possível;
Prós: já se dispõe da tecnologia necessária (grandes naves espaciais);
Contras: transformar toda a energia gerada, no impacto, em movimento, de forma a modificar o curso do asteróide (evitando a retirada de apenas uma lasca ou a fragmentação do asteróide);
Método do Lançador de Massa: lançamento de rochas extraídas do asteróide, através de um dispositivo construído na superfície do asteróide, desacelerando-o;
Prós: retirada de matéria do próprio asteróide, não sendo necessário a utilização de uma grande quantidade de propelente (combustível);
Contras: construção do dispositivo e obtenção de uma fonte substancial de energia para seu funcionamento;
Método da Ablação: aquecimento de uma pequena área na lateral do asteróide por um laser potente ou por luz solar refletida, produzindo a vaporização de matéria e conseqüentemente seu deslocamento;
Prós: desconsidera o movimento de rotação do asteróide;
Contras: a manutenção precisa da posição do laser ou dos espelhos consumiria grande quantidade de propelente, além dos elementos ópticos estarem vulneráveis à atenuação devido ao material vaporizado;
Método da Pressão Solar: pintura do asteróide com uma tinta altamente refletora que mudaria a pressão de radiação solar, desviando o curso do asteróide;
Prós: desconsidera o movimento de rotação do asteróide;
Contra: utilização de uma quantidade incomensurável de tinta e dificuldade na sua aplicação;
Método de Ancorar e Empurrar: ancorar um rebocador ao asteróide e modificar seu curso;
Prós: o sistema propulsor já existe e seria o mesmo utilizado para se chegar ao asteróide;
Contras: manobrar o rebocador de forma a atracá-lo ao asteróide;
Pois é. Enquanto estes projetos não se concretizam eu fico com a boa e velha técnica do Salve-se Quem Puder!!
posted by DANIEL PESSOA
4:09 PM
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Domingo, Março 14, 2004
Praia, Câncer e Biodiversidade
Estudos mostram que o ácido pomólico, substância purificada do Chysobalanus icaco, não apenas mata linhagens de células tumorais de várias origens (leucemias, pulmão, laringe, intestino, mama, sistema nervoso, pele), mas também linhagens tumorais que expressam o fenômeno de resistência a múltiplas drogas (MDR).
O câncer, a segunda causa de morte no Brasil, tem na quimioterapia um dos principais métodos de tratamento. O MDR tem sido apontado como um dos principais fatores de falha terapêutica e perda de vidas. Segundo experimentos preliminares, realizados na UFRJ, o ácido pomólico teria a capacidade de eliminar de 80 a 90% das células cancerígenas.
O Brasil é o mais rico entre os países de megadiversidade biológica, concentrando entre 10 e 20% do total de espécies. A descoberta de substâncias com atividade biológica determinada é uma etapa primordial para o desenvolvimento de drogas farmacologicamente válidas. A patente da atividade do ácido pomólico já foi depositada no Tratado Internacional de Patentes.
O Chrysobalanus icaco, conhecido pelos nomes de abajeru, maçãzinha-da-praia, guajeru, ajeru, cresce nas restingas brasileiras. Na verdade, é bem provável que muitos de vocês já tenham passado, pisado ou realizado outro tipo de atividades atrás de moitas de guajeru. Sendo assim, da próxima vez que você for à praia use bloqueador solar e coma frutos de guajeru. Eu tenho feito isso há vinte anos sem sequer desconfiar dos benefícios.
Chrysobalanus icaco
Fonte de consulta: Alternativas contra o câncer. Scientific American Brasil, ano 2, número 22.
posted by DANIEL PESSOA
2:14 PM
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Sexta-feira, Março 12, 2004
O Ovo e a Galinha
Afinal, quem surgiu primeiro? O ovo ou a galinha? Esta pergunta intriga as mentes humanas a muitos séculos. Na verdade, tamanho é o enigma que cerca este tema, que muitos sequer se dão ao trabalho de analisar logicamente a pergunta. No entanto, como elucubrar é o que eu mais gosto de fazer... vou tentar fazer algumas considerações a respeito do assunto.
Baseando-me nos preceitos da teoria da evolução, a única teoria biológica com status de lei, e nos indícios taxonômicos atualmente mais aceitos, parece-me óbvio que o ovo tenha surgido primeiro.
O surgimento do ovo amniótico se deu a milhões de anos atrás na linhagem ancestral que resultou no surgimento dos amniotas (répteis, aves e mamíferos). Sendo assim, até mesmo os répteis mais primitivos já botavam ovos que se assemelhavam aos atuais ovos de galinha. Vale salientar que as aves e os crocodilianos formam grupos irmãos, ou seja, são provenientes de um ancestral comum. As aves teriam, portanto, se originado a partir de répteis ancestrais que botavam ovos.
Desta forma, a única maneira das galinhas terem surgido antes do ovo seria se elas tivessem existido a milhões de anos atrás como algum tipo de forma de vida pré-reptiliana anfíbia ou aquática.
posted by DANIEL PESSOA
1:23 AM
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Quinta-feira, Março 04, 2004
Em Busca do Eldorado
Recentes descobertas arqueológicas apontam para a existência de sociedades complexas na Amazônia pré-colonial. Este tem sido um dos temas do momento, tendo sido abordado pelo periódico Science (19 de setembro de 2003), pela revista Pesquisa da FAPESP (outubro de 2003) e até mesmo pelo canal por assinatura Discovery Channel.
Grandes e refinados assentamentos humanos, habitados simultaneamente por milhares de pessoas, teriam existido antes da chegada dos exploradores europeus. Um conjunto de 19 aldeias de formato circular, as maiores protegidas por fossas de até 5 metros de profundidade e muros de paliçadas, interligadas por uma extensa e larga malha de estradas de terra batida. Estas sociedades apresentariam um estilo de vida sedentário, com práticas que alteravam a floresta nativa e possibilitavam a adoção de uma agricultura razoavelmente produtiva.
Segundo o arqueólogo Michael Heckenberger (Universidade da Flórida) "As estradas são um trabalho de engenharia que movimentou uma quantidade enorme de terra no plano horizontal. Construir essas estruturas na floresta talvez não tenha sido mais complicado do que fazer pirâmides, mas representa uma outra forma de monumentalidade."
Aparentemente, estas sociedades se utilizavam das inundações sazonais que ocorrem na região para construir um sistema de barragens e canais, garantindo um fornecimento anual de água para suas plantações. Além disto, através da derrubada da floresta para produção de carvão se produzia um solo mais propício ao plantio.
Uma série de sítios amazônicos apresentam um grande acúmulo de "terra preta", um tipo especial de solo derivado do solo pobre da Amazônia e aditivos orgânicos. Suspeita-se que a ação humana tenha sido responsável pela alteração do solo comum em terra preta. Com base na distribuição desta terra preta calcula-se que o tamanho total desta civilização poderia exceder em duas vezes a área do Reino Unido.
Apesar de amplamente explorada a terra preta parece nunca se esgotar, e continua se multiplicando misteriosamente. Em média, a taxa de reposição deste tipo de solo seria de 1cm a cada ano. Os fatores que determinam este surgimento ainda são desconhecidos, contudo, o papel de microorganismos especiais já foi levantado.
O estudo das técnicas agrícolas do passado podem auxiliar no desenvolvimento da agricultura da Amazônia de hoje. Este pode ser o início de uma mudança cultural, que poderia resultar num aumento de produtividade agrícola e diminuição do desmatamento.
Nota do Pensador: Voltei de João Pessoa mas já vou ter que viajar para Florianópolis. Prometo que a partir da segunda quinzena de março, quando esta fase nômade da minha vida se encerrar, voltarei a postar com maior regularidade. Valeu por todos os comentários.
posted by DANIEL PESSOA
3:53 PM
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