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Sábado, Janeiro 31, 2004


Transgênicos (Parte 2: argumentos socio-econômicos)


Continuando...

Além dos riscos ambientais e dos riscos à saúde humana, os transgênicos também parecem ameaçar a saúde sócio-econômica do planeta. Numa carta aberta de cientistas dirigida a todos os governos, assinada por mais de 400 cientistas de mais de 55 países, exige-se a moratória na difusão de OGMs (organismos geneticamente modificados), com base nos princípios da prevenção e precaução. A carta alerta não só para o estrago que estes produtos possam vir a causar sobre a biodiversidade, segurança alimentar, saúde dos seres humanos e dos animais, mas também para o fato dos OGMs intensificarem o monopólio corporativo, agravarem a condição de desigualdade e prevenirem que ocorra uma mudança no sentido de uma agricultura sustentável que possa fornecer segurança alimentar e saúde em todo o mundo.

Além do pedido para interrupção imediata do cultivo de OGMs, a eliminação das patentes relativas a formas de vida e processos biológicos também é uma das requisições do documento. Segundo a carta, estas patentes constituem uma ameaça à segurança alimentar, aprovam e homologam a biopirataria de conhecimentos indígenas e de recursos genéticos, violam os direitos humanos básicos e a dignidade, comprometem os cuidados com a saúde, impedem a pesquisa médica e científica e vão contra o bem-estar dos animais.

A Monsanto, empresa responsável pelo desenvolvimento de OGMs, se defende apontando as inúmeras vantagens que o cultivo de transgênicos poderia trazer para a humanidade. Segundo a Monsanto, com o cultivo de OGMs pode-se ganhar muito em preservação do meio-ambiente, já que culturas transgênicas seriam mais produtivas e necessitariam de menos herbicidas. Contudo, uma pesquisa universitária de 8.200 testes no campo de uma das culturas de OGMs mais conhecidas, os grãos de soja resistentes a herbicidas, revelou que elas rendem 6,7% a menos e requerem de duas a cinco vezes mais herbicida do que as variedades não-OGMs. Esse dado foi confirmado por um estudo científico recente na Universidade de Nebraska.

Adicionalmente, outros problemas (desempenho irregular, suscetibilidade a doenças, aborto de frutas e parcos retornos para os agricultores) têm sido identificados para os OGMs. Além de produzir OGMs, a Monsanto também é responsável pelo desenvolvimento de herbicidas. Na verdade, a Monsanto iniciou suas pesquisas com o desenvolvimento de agentes biológicos para fins bélicos. Aparentemente, o mercado agrícola anda compensando mais ultimamente. Assim, além de vender as sementes (que são patenteadas) eles ganham na venda de herbicidas. Os lucros vão além disso, caso alguma plantação normal fosse contaminada acidentalmente por pólen transgênico de uma plantação próxima, o agricultor, dono do plantio contaminado, teria que pagar Royalties à Monsanto.

Segundo o programa de alimentação da ONU, há comida suficiente para alimentar mais de uma vez e meia a população do mundo. Enquanto a população mundial cresceu 90% nos últimos 40 anos, a quantidade de comida per capita aumentou 25%; ainda assim, um bilhão de pessoas passam fome. É mais provável que os malefícios econômicos causados pelos transgênicos superem em muitos os poucos benefícios. No momento, o mundo não precisa aumentar sua produção agrícola, uma melhor distribuição do alimento já resolveria grande parte da fome no planeta.





Apartes:

Sexta-feira, Janeiro 30, 2004


Alumbramento


Este é o título de um dos poemas de Manuel Bandeira. É um dos meus poemas favoritos, não sei exatamente porque. Talvez pelo fato de saber que o poeta sofria de tuberculose e portanto não tinha muito contato com as mulheres. Dá até pra sentir a empolgação do autor. Na minha opinião, Manuel Bandeira consegue dosar adequadamente o romantismo e o erotismo em suas poesias.


Alumbramento
Manuel Bandeira

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...

Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!...
Vi... vi o rastro do Senhor!...

E vi a Via-Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...

Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

--- Eu vi-a nua... toda nua!





Apartes:

Terça-feira, Janeiro 27, 2004


O blog começa a lhe fazer mal quando...


As pessoas perguntam como foi seu dia e você diz para lerem no blog.

Deixa de sair com os amigos para ler comentários.

Cria um personagem fictício para comentar no próprio blog.

Comenta em vários blogs qualquer coisa, só para fazer propaganda do seu.

Dá reload no blog várias vezes para aumentar o número de visitas no contador.

Só escreve sobre assuntos que vão lhe render visitas através dos sites de busca.

Nunca leu um livro, mas acha que pode escrever alguns.

Acha que um dia pode concorrer à ABL.

Fica arrasado com críticas e nem consegue dormir.

Quando está com outras pessoas, só fala de blogs e posts.

Perde completamente a noção de privacidade, sai botando na banca as piores histórias da família e dos amigos e ainda dá nome, endereço e telefone de todo mundo.

Não consegue ficar um minuto sequer longe do micro.

Quando está longe, não vê a hora de voltar pra casa, conferir as estatísticas, os comentários e escrever sobre a sua preocupação em voltar logo para frente do micro.

Acha que as pessoas vão surtar se você deletar seu blog e desaparecer.

Passa o dia pensando no que postar.

Fica deprimido se não há o que escrever.

Fica deprimido porque ninguém comenta os seus posts.

Fica deprimido se o número de visitantes diminui.

Comemora sempre que o contador bate os números redondos.

Passa o dia fazendo propaganda do próprio site.

Quando entra em um banheiro público, deixa o endereço do blog atrás da porta.

Não agüenta nem ouvir falar a palavra blog.

Já pensou em tornar-se um serial killer de blogueiros.

Colocou uma foto no último post e não vê a hora de ser reconhecido nas ruas.

Os fotologs irão transformá-lo em um super astro.

Não desgruda mais da máquina fotográfica. Toda imagem vale um post.

Não vê a hora de acontecer um novo encontro de blogueiros.

Acha que é famoso.

Acha que é engraçado.

Acha que deveria receber pra escrever no blog.

Acha que sua vida vale um filme.

Acha que é escritor.

Acha que a sua vida é uma merda, mas que ficaria insoportável sem o blog.

Acha que é interessante e que suas histórias são impagáveis.

Transforma qualquer assunto besta em confusão só pra chamar atenção.

Acha que é criticando que verão que o seu blog e você existem.

Vive colocando seu nome e o do blog no Google pra ver quem escreveu sobre você.

Quando não tem nada para fazer, fica procurando erros de português no blog dos outros.

Senta a boca nos comentários dos blogs populares, só pra ganhar notoriedade.

Sabe que tem um português sofrível, mas diz que não se importa e capricha nos erros.

Fica indignado ao ver que o seu blog não saiu nas indicações do No Mínimo, Globo, Blogger, Blig e outros.

Manda fazer cartões de visita com o endereço do blog.

Passa mais de oito horas por dia gerenciando o próprio blog.

Noventa e nove por cento dos seus amigos tem blog.

Seus últimos relacionamentos amorosos começaram via sistema de comentários.

Terminou o namoro via post.

Já pensou em pedir as contas do emprego para se dedicar mais ao blog.

Quando está com amigos blogueiros e tem uma idéia para um post, avisa logo: "Eu primeiro! Idéia minha! Post meu!"

Não perde a oportunidade de ser o primeiro a comentar um post.

Sempre que é o primeiro a comentar um post escreve: "Primeiroooooo!"

Só encontra seus amigos via ICQ.

Coloca no blog a foto de alguém que não é você, mas jura de pés juntos que é.

Quando viaja, não relaxa até achar um cyber café.

Fica de mau-humor quando o blog ou suas ferramentas saem do ar.

O Weblogger já te deixou de cama por três dias.

Fica andando de um lado para o outro quando o blog sai do ar.

Só se relaciona com blogueiros famosos e ignora qualquer um que tenha menos de cem visitas diárias.

Fica emocionado quando ganha um award e agradece como se tivesse ganhado o Oscar.

Você se informa das novidades pelo Top Links.

Anda na rua achando que todos sabem quem você é.

Verifica as estatísticas dos blogs antes de se dar ao trabalho de comentar.

Já namorou o(a) autor(a) de um blog popular só para ganhar um link.

Acha que link no seu blog vale mais do que ouro em Serra Pelada.

Não linka ninguém porque acha que não há blog melhor que o seu.

Não linka ninguém por que não quer concorrência.

Linka todo mundo porque quer links de todo mundo.

Quando dorme, você sonha com um template novo.

Coloca scripts para evitar que copiem seus textos e imagens utilizando o teclado e o botão direito do mouse.

Você já pensou em colocar espaço para publicidade no blog.

O computador pifa e você pifa junto.

A internet fica lenta e você liga no provedor e xinga até a mãe dos atendentes.

Não suporta mais escrever no blog, mas não o deleta porque desaprendeu a viver sem comentários.

Você grita, se descabela e esmurra o computador quando expira o tempo de postagem e você perde um post inteirinho.

Seus últimos sonhos de consumo estão todos relacionados ao blog: notebook, câmera digital, webcam, speed...

Passa o dia atualizando o blog só para aparecer no Fresh Blogs.

Tem custos altíssimos para manter o blog como: domínio próprio, hospedagem, tráfego adicional, etc.

Quando está com amigos blogueiros fica calado para evitar que suas idéias sejam usadas por eles.

Já pensou em vender o blog. Passar o ponto.

Está pensando seriamente em colocar uma foto sua de nu frontal com o endereço do blog pra ver se ela vira spam.

Acha que o blog é a sua grande chance de tornar-se uma celebridade.

Anda mentindo descaradamente, mesmo com o contador aberto, sobre o seu número de visitas.

Anda mentindo descaradamente sobre o seu número de visitas e, pra não deixar rastro, desapareceu com o serviço aberto de estatística.

Anda copiando descaradamente velhas idéias e saí espalhando por aí que elas são suas.

Deseja esganar um pescocinho quando vê que copiaram um texto e ignoraram a autoria (a propósito, este texto foi escrito por Alê Félix, do amarulacomsucrilhos.com.br)

Encontra esta porcaria de texto, percebe que esqueceu de citar diversos malefícios causados pelo blog, o atualiza e perde mais alguns minutos da sua vida postando esta merda.





Apartes:

Sábado, Janeiro 17, 2004


Transgênicos (Parte 1: argumentos biológicos)


Este tem sido uns dos assuntos mais polêmicos dos últimos anos. Os transgênicos ou, como também são conhecidos, organismos geneticamente modificados (OGMs) são organismos, geralmente de interesse comercial, que tiveram seu genoma modificado através da inserção artificial de um ou mais genes alienígenas (provenientes de outras espécies). Um exemplo clássico de organismo transgênico é a planta do fumo com capacidade de bioluminescência, criada a partir da inserção de um gene do vaga-lume, responsável pela capacidade bioluminescente do inseto. A tecnologia por trás dos organismos transgênicos é indiscutivelmente fabulosa.

Não é difícil imaginar que são muitas as aplicações desta técnica, dentre algumas: nutrição, medicina, produção animal e vegetal. Contudo, por hora, a transgenia tem ganhado grande destaque no campo da produção vegetal. Plantas de grande interesse comercial, como o milho e a soja têm sido submetidos a uma série de modificações genéticas de forma a produzir organismos que apresentem resistência a herbicidas, resistência a pesticidas, resistência a parasitas e etc. Em teoria, estas melhorias levariam à redução do uso de agentes químicos nas plantações, contaminando menos o meio ambiente e possibilitando o cultivo de produtos livres de produtos tóxicos.

Esta seria uma ótima notícia não fosse o fato dos próprios OGMs estarem sendo apontados como fontes de biocontaminação. Os genes alienígenas dos OGMs não só podem acabar se espalhando desenfreadamente para outras plantas das proximidades, causando danos ambientais desastrosos, como também são assimilados em pequenas doses pelos animais que consomem os produtos transgênicos. Os efeitos destes genes alienígenas, que incluem muitos genes virais similares aos genes do vírus HIV, nos organismos consumidores ainda não são muito bem compreendidos. Relatos de mortes e intoxicações, em seres-humanos, causadas por OGMs já foram reportados.

Definitivamente, testes exaustivos são necessários para que se possa determinar quais são exatamente os riscos, se é que existem, do consumo de OGMs à saúde humana. O Brasil, mais uma vez, para orgulho dos brasileiros, assume uma posição de vanguarda e exige a rotulagem dos produtos derivados de OGMs. Todos produtos com mais de 2% de OGMs em sua composição terão que exibir uma etiqueta triangular visível em seus rótulos. Uma atitude louvável, afinal, os consumidores têm o direito de saber o que estão consumindo, assim como suas indicações e contra-indicações.





Apartes:

Segunda-feira, Janeiro 12, 2004


Soberania Nacional


Para mim este sempre foi um tema extremamente importante. Sou do tipo de brasileiro que veste a camisa mesmo. Tenho orgulho de ter nascido neste país. O Brasil é um país abençoado. Já me peguei várias vezes masturbando-me mentalmente com este assunto. Será que isso é apenas resultado da visão parcial de um nacionalista? Ou será que este território realmente concentra um dos melhores pedaços de terra do planeta? Não sei, nunca fui atrás de uma resposta cientificamente embasada. Mas certamente o nosso país está entre os mais habitáveis do mundo.

Aqui nós temos o privilégio de dispor de uma grande variação de climas, vegetações e relevos. Mas, no entanto, sem ter que arcar com o duro preço pago por outras nações. No Brasil nós não temos tornados, terremotos, vulcões, maremotos... não, nós não temos nada disso. Talvez a seca do sertão nordestino e o "El Niño" sejam os nossos maiores problemas. Nossos problemas climáticos, pois de problemas sociais somos campeões. Fome, analfabetismo e desemprego!! Grandes vilões sociais. Contudo, o maior vilão social de todos, talvez seja o caráter passivo do brasileiro. Como já disseram antes: não confunda passivo com pacífico. Sim, o brasileiro, historicamente, sempre exibiu atitudes passivas. Mas nunca essa passividade foi tamanha!! Tão grande a ponto de colocar em risco um dos nossos maiores bens... a Amazônia. Será que estou falando abobrinhas? Estou desinformado? Será que, na verdade, o governo brasileiro sempre agiu de forma a preservar o nosso patrimônio, evitando sempre o conflito direto com forças poderosas? Novamente... não sei, são apenas devaneios de uma mente pensante. O que sei é que, no passado, o Brasil sempre trabalhou a favor da anexação de mais territórios, sempre fechando bons negócios (com exceção do lamentável episódio da Cisplatina). Conseguimos até mesmo anexar o Acre em troca de um cavalo!! É claro, também de um gasoduto que só ficou pronto recentemente. Cadê este espírito nacionalista? Quando foi que ele quase morreu? Nos anos 60 e 70? É bem possível. "Brasil, ame-o ou deixe-o". Hahaha, que ironia... justamente durante um regime que tinha esta frase como lema, foi que a nação mais perdeu sua identidade!! São feridas profundas que vão demorar a serem cicatrizadas. Mas, um dia, inevitavelmente cicatrizarão. Já estão cicatrizando...

Eu só espero estar vivo para poder presenciar o momento em que a crosta feia e velha finalmente seja removida, restando apenas o tecido novo e regenerado.





Apartes:

Quarta-feira, Janeiro 07, 2004


Validade do Conceito de Raça


Afinal, podemos ou não separar a população humana em diferentes grupos raciais? A resposta para esta pergunta parece variar de acordo com o conceito de raça adotado. As raças humanas podem ser definidas com base em seus atributos físicos (e.g. cor dos olhos, cor e textura dos cabelos, cor da pele), sua origem geográfica, seus costumes e tradições, sua similaridade genética, e por aí vai. Isto faz com que um determinado indivíduo seja considerado "negro" nos EUA, "branco" no Brasil e "de cor" na África do Sul. Enfim, haveria alguma forma mais objetiva de se definir uma raça? Muitos buscam na biologia uma resposta para este impasse. Mas será que com base na análise de nosso DNA poderemos encontrar grupos geneticamente coesos que correspondam aos principais grupos étnicos existentes?

Segundo a matéria "Ambigüidades que limitam uma definição de raça" da Scientific American Brasil deste mês, os seres humanos podem ser agrupados em meia dúzia de grupos geneticamente aparentados. Estes achados já estão sendo utilizados pela medicina, e auxiliarão no diagnóstico de doenças assim como na prescrição de medicamentos. Contudo, sobrepondo-se aos dados genéticos os dados fenotípicos, não se encontra nenhuma forte correlação. Aparentemente, a similaridade encontrada entre indivíduos de um mesmo grupo genético está muito mais relacionada à sua origem geográfica que aos seus atributos físicos.

Automaticamente, isto me faz levantar algumas indagações. Por exemplo, que critérios, dentro da realidade da nova cota para negros, a UnB vai utilizar para definir seus candidatos? Com base em cor da pele? Segundo o que a própria matéria da Scientific American Brasil defende, fica ainda mais difícil de definir geneticamente as raças humanas em regiões onde tenha ocorrido recente miscigenação. Não seria este o caso do Brasil?

Deixo aqui o meu protesto contra esta nova cota. Até agora, ainda não conseguiram me apresentar nenhum argumento forte o suficiente para justificar tão grave desequilíbrio no processo democrático. Não creio que as mazelas da educação superior brasileira possam ser resolvidas com medidas discriminatórias. A Universidade, como instituição, deve zelar pela sua qualidade. Desta forma, a conclusão óbvia é que aos alunos mais preparados e às mentes mais brilhantes seja dado o privilégio de se estudar numa instituição de ensino superior. O papel do governo é de assegurar que cada cidadão, preto ou branco, rico ou pobre, gordo ou magro, tenha acesso a uma boa educação. Ao meu ver, muito mais poderia ser feito caso o governo decidisse financiar, com bolsas de estudo, os alunos carentes que chegam à universidade. Alunos que muitas vezes não têm condições de concluir os estudos ou que necessitam trabalhar para isso.





Apartes:

Segunda-feira, Janeiro 05, 2004


O Genoma Oculto


"O DNA já foi considerado o único repositório de informação genética. Mas os biólogos estão começando a decifrar uma camada de informação separada, muito mais maleável, codificada dentro dos cromossomos".

Esta é a chamada da reportagem "O Genoma Oculto Além do DNA" publicada na edição de janeiro de 2004 da Scientific American Brasil. O texto chama a atenção para a existência de outros fatores determinantes do genoma, além do DNA per si. Segundo os próprios autores: "Um genoma, a soma de informações hereditárias no interior dos cromossomos que governam o desenvolvimento de um organismo, não é um texto estático transmitido ao longo das gerações, mas uma máquina bioquímica de uma complexidade impressionante".Ou seja, existe algo no genoma além do DNA, como, por exemplo, os fatores epigenéticos. Os fatores epigenéticos são assim chamados por serem capazes de modificar as características de um indivíduo, podendo ser transmitidos hereditariamente, sem que, no entanto, alterem a seqüência do DNA subjacente.

Numa matéria publicada na edição de dezembro de 2003 da Scientific American Brasil, "O Genoma Oculto", o papel das regiões não-codificadoras do DNA (regiões que não codificam proteínas) é discutido. Aparentemente, ao contrário do que se costumava acreditar, estas regiões apresentam funções bem definidas, sendo de suma importância para a regulação do genoma. Correspondendo a mais de 90% do DNA de uma célula, as seqüências não-codificadoras são capazes de produzir RNAs ativos, através dos quais alteram o comportamento dos genes normais. Disfunções nestas seqüências não-codificadoras podem afetar o funcionamento de seqüências codificadoras, e conseqüentemente gerar doenças.

Além de explicarem a ocorrência de uma série de doenças, como: esquizofrenia, desordem bipolar, diabetes e até mesmo o câncer; os fatores epigenéticos também parecem estar relacionados ao envelhecimento, como pode ser constatado na clonagem. Ao se clonar uma célula, esta perde a programação epigenética original, o que normalmente, em cerca de 90% dos casos, leva á morte. Metade dos clones que nascem nunca atingem a idade adulta e os poucos que sobrevivem até a maturidade tendem a sofrer de obesidade e doenças imunológicas.

A constatação de que o genoma é constituído por três grupos de fatores: DNA codificador, DNA não-codificador e camada epigenética (anexos químicos ligados ao DNA); coincide com a finalização do projeto genoma humano. A importância reguladora do DNA não-codificador e dos fatores epigenéticos parece ser tão grande que o projeto epigenoma humano, em inglês Human Epigenome Project, já foi iniciado e tem como objetivo o mapeamento de todos os pontos de metilação do DNA humano num prazo de cinco anos.

A constatação de que o nosso repositório de informação genética não se resume apenas aos 30 mil genes codificadores de proteínas foi um golpe duro na antiga polêmica GENES vs AMBIENTE. De agora em diante também deveremos levar em consideração os fatores epigenéticos, que são modificados pelo ambiente ao mesmo tempo em que podem ser transmitidos hereditariamente.





Apartes:



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